O equilibrio que se move

Quando o Sol entra em Libra, a palavra equilíbrio aparece quase imediatamente. A balança é o símbolo do signo e a associação parece tão evidente que muitas vezes paramos por aí. Libra fica ligado à harmonia, à conciliação, à diplomacia, como se equilibrar significasse colocar as coisas em seus lugares e conseguir mantê-las assim.
Equilíbrio pra mim que estudo Química há quase quarenta anos é algo que, à primeira vista, pode parecer contraditório: um sistema em equilíbrio pode estar em plena atividade. Em uma reação química reversível, reagentes formam produtos e os produtos podem voltar a formar reagentes. Quando as velocidades dessas duas reações se igualam, as concentrações permanecem constantes. Para quem observa o sistema macroscopicamente, há estabilidade. No nível molecular, as reações continuam acontecendo. É o equilíbrio dinâmico que estudamos em Química (Brown et al., 2016).
Foi inevitável levar essa ideia para a minha leitura de Libra. O próprio instrumento que representa o signo responde ao peso que recebe: acrescentamos ou retiramos alguma coisa e sua posição se altera. A balança não produz imobilidade; ela registra uma relação entre forças. A expectativa de que equilíbrio corresponda a uma situação definitiva, sem tensão, mudança ou necessidade de ajuste, é nossa.
Libra também está longe de ser um signo estático. É cardinal e, no zodíaco tropical, a entrada do Sol em Libra marca o equinócio de setembro, um dos quatro pontos que iniciam as estações. No hemisfério sul, começa a primavera; no norte, o outono. Há mudança de estação justamente no momento em que começa a temporada libriana. Libra pertence ainda ao elemento ar, relacionado às trocas, à circulação e às relações. Portanto, a velha descrição do signo como aquele que hesita, pondera demais e tenta deixar todo mundo satisfeito é uma espécie de caricatura.
Na tradição astrológica, Libra é domicílio de Vênus e o Sol está em queda nesse signo (Ptolomeu, 2001; Avelar; Ribeiro, 2017). As duas condições ajudam a pensar o problema por ângulos diferentes. Vênus diz respeito ao que valorizamos, ao que nos atrai e às formas de vínculo e acordo. O Sol, por sua vez, está ligado à centralidade, à autoridade e à capacidade de ocupar uma posição própria.
A queda do Sol introduz uma tensão importante para compreender Libra. Em Áries, signo de exaltação do Sol, a ação parte de um centro que se afirma. Em Libra, no polo oposto, esse centro encontra outro centro. A vontade de uma pessoa precisa conviver com a vontade de outra; uma decisão individual passa a produzir consequências numa relação. Isso não transforma quem tem Sol em Libra em alguém sem vontade ou identidade. Mostra apenas que a função solar encontra ali condições diferentes daquelas que encontra em Áries.
Queda também não é sinônimo de algo ruim. As dignidades descrevem condições de funcionamento dos planetas dentro de uma tradição técnica. A leitura depende do mapa inteiro, das casas, dos aspectos, das recepções e de outros fatores. Reduzir uma pessoa à expressão “Sol em queda” empobrece o mapa tanto quanto resumir Libra à busca de harmonia.
O problema, então, não é deixar de ter um centro para considerar o outro. É aprender a ocupar o próprio lugar sem precisar ocupar todo o espaço. Considerar outra pessoa e desaparecer diante dela são coisas muito diferentes. A dificuldade de decidir, tantas vezes atribuída a Libra, pode aparecer quando as posições alheias ganham tanto peso que a própria vontade perde nitidez. Em outras situações, escutar perspectivas diferentes pode tornar uma decisão mais atenta às consequências que ela terá para quem também participa daquela situação.
É aí que a ideia abstrata de equilíbrio começa a ficar concreta. Gostar de alguém não resolve como duas pessoas vão dividir dinheiro, tarefas, tempo, responsabilidades, cuidado com os filhos, atenção aos pais, férias ou planos para o futuro. Algumas combinações funcionam durante anos. Outras precisam ser revistas muito antes disso. Uma relação longa provavelmente já passou por distribuições diferentes de responsabilidades, tempo e cuidado.
A comparação com a Química acrescenta um segundo ponto. Quantidades iguais não são condição necessária para que uma reação esteja em equilíbrio. Podemos ter concentrações bastante diferentes de reagentes e produtos. O que define o equilíbrio químico é a relação entre as velocidades das reações direta e inversa nas condições em que aquele sistema se encontra (Atkins; Jones, 2012).
Na vida, cinquenta por cento para cada lado parece justo no papel, mas dificilmente funciona assim o tempo inteiro. Em determinado período, uma pessoa pode assumir mais tarefas porque a outra está doente, porque um filho nasceu, porque o trabalho apertou ou porque os pais envelheceram. Em outra época, a distribuição pode se inverter. Reciprocidade não precisa ser uma conta fechada diariamente.
O problema começa quando uma diferença que respondia a uma circunstância vira regra. Alguém assumiu uma tarefa durante um período difícil e continuou responsável por ela durante anos. Uma concessão pontual virou obrigação. Depois de algum tempo, já nem lembramos como aquilo começou. Dizemos simplesmente que “ela sempre cuidou disso”, “ele não sabe fazer essa parte”, “aqui em casa sempre foi assim”. Muitas desigualdades se instalam desse jeito: repetem-se por tanto tempo que começam a parecer naturais.
Essa possibilidade de mudança também está presente no próprio estudo do equilíbrio químico. Alterações de concentração, pressão ou temperatura, conforme a reação considerada, podem modificar a composição de um sistema. O princípio de Le Châtelier é uma das formas clássicas de estudar essas respostas (Atkins; Jones, 2012; Brown et al., 2016). Mudaram as condições, muda a maneira como o sistema responde a elas.
Na vida, nem sempre aceitamos isso com a mesma facilidade. Mudamos de emprego e tentamos preservar a mesma rotina. Os filhos crescem e continuamos nos relacionando com eles a partir de papéis construídos quando eram crianças. Nossos pais envelhecem e a organização familiar precisa ser refeita. O corpo muda, a situação financeira muda, as prioridades mudam. Uma relação iniciada aos trinta chega aos cinquenta depois de vinte anos de acontecimentos que modificaram as duas pessoas. Ainda assim, podemos continuar cobrando dos acordos antigos respostas para uma realidade que já é outra.
É aí que o eixo Áries-Libra se torna especialmente claro. Áries parte de um centro próprio de ação: eu quero, eu começo, eu decido. Libra encontra alguém que também quer, começa e decide. Costumamos resumir esse eixo como “eu e o outro”, mas a questão fica mais precisa quando pensamos no que acontece quando duas vontades legítimas precisam conviver sem que uma seja automaticamente subordinada à outra.
Essa diferença também aparece quando colocamos dois mapas em relação. Podemos imaginar uma pessoa com Vênus em Peixes e outra com Vênus em Gêmeos, formando uma quadratura entre as duas Vênus. A quadratura aponta uma tensão, não uma sentença sobre o relacionamento. As duas pessoas podem viver o afeto, demonstrar interesse e buscar proximidade de maneiras bastante diferentes. Uma Vênus em Peixes pode perceber muito do que circula sem precisar colocar tudo imediatamente em palavras, enquanto uma Vênus em Gêmeos pode precisar justamente da conversa, da nomeação, da troca verbal. Em certos momentos, uma terá de dizer com mais clareza aquilo que espera; a outra talvez precise escutar o que não costuma perceber. Nenhuma precisa se transformar na outra.
Por isso, considero uma balela a ideia de compatibilidade como ausência de aspectos tensos. Duas pessoas não precisam funcionar do mesmo modo para construir uma relação. Às vezes, a diferença obriga cada uma a desenvolver recursos que utilizava pouco. Uma quadratura pede trabalho porque aquilo que uma pessoa faz espontaneamente pode não chegar à outra da maneira esperada. O que será feito com essa diferença depende do conjunto dos mapas, da história das pessoas e de como elas vivem aquele vínculo.
Amar alguém não elimina preferências próprias. Formar uma sociedade não torna os interesses idênticos. Viver em família não faz com que todos tenham as mesmas necessidades ao mesmo tempo. Considerar o outro sem transformá-lo na medida de todas as nossas decisões é uma questão importante de Libra, assim como reconhecer que a nossa medida também não pode valer automaticamente para quem está do outro lado.
Também por isso não vejo harmonia como ausência de conflito. Há relações nas quais as pessoas discordam, conversam, refazem acordos e continuam juntas. Há outras aparentemente tranquilas porque alguém se acostumou a ceder antes mesmo de dizer o que queria. A ausência de discussão pode resultar de um bom entendimento, mas pode igualmente revelar medo de conflito, cansaço, dependência, diferença de poder, hábito ou a percepção de que falar não produzirá mudança.
A regência de Vênus não transforma toda concessão em gesto de amor. Vênus ajuda a pensar o que valorizamos e o que desejamos preservar em um vínculo, mas as razões pelas quais uma pessoa cede são muitas e nem sempre virtuosas. Podemos ceder por afeto, conveniência, medo, necessidade, expectativa social ou simples repetição. Por isso, o fato de um acordo manter uma relação de pé não basta para dizer que ele continua justo para quem participa dela.
A mesma lógica vale fora das relações amorosas. Trabalho, dinheiro, descanso, família, estudo, amigos e projetos não ocupam sempre a mesma proporção. Há épocas em que o trabalho toma muito de nós. Em outras, uma questão familiar exige prioridade. Há períodos em que conseguimos manter uma agenda cheia e outros em que precisamos retirar coisas dela. O que funcionava aos trinta pode ser completamente inadequado aos cinquenta.
A entrada do Sol em Libra me lembra justamente que equilíbrio não é encontrar uma divisão perfeita e conservá-la para sempre, mas perceber quando a distribuição existente ainda responde à vida que estamos vivendo e quando já não responde. Alguns acordos precisam continuar; outros precisam ser renegociados. Algumas responsabilidades ainda nos pertencem; outras ficaram conosco apenas porque ninguém voltou a perguntar por que estavam ali.
Talvez a balança seja uma boa imagem por porque ela se move quando o peso muda. Não fracassa por se mover. Faz exatamente o que deveria fazer: acusa a mudança e pede uma nova medida. Na vida, permanecer em equilíbrio pode exigir a mesma coisa.
Referências
ATKINS, Peter; JONES, Loretta. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012.
AVELAR, Helena; RIBEIRO, Luís. Tratado das esferas: um guia prático da tradição astrológica. 3. ed. Lisboa: Prisma Edições, 2017.
BROWN, Theodore L.; LEMAY, H. Eugene; BURSTEN, Bruce E.; MURPHY, Catherine J.; WOODWARD, Patrick M.; STOLTZFUS, Matthew W. Química: a ciência central. 13. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2016.
PTOLOMEU, Cláudio. Tetrabiblos. Tradução de F. E. Robbins. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2001. (Loeb Classical Library, 435).




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